Tempo quaresmal

Extraído de: interjornal.noticias   Fevereiro 22, 2013

Quaresma é o tempo em que devemos reconhecer que somos pó. Representa os 40 anos de caminhada do povo de Israel, pelo Deserto de Sinai em busca da Terra Prometida

A Quaresma, celebrada pela Igreja Católica, inicia-se depois da loucura do Carnaval. A Quaresma, que dura 40 dias, é tempo marcado pelo jejum e pela penitência, para os cristãos. Mas essa privação não se esgota com a chegada da Páscoa. O desencanto dos mais conscientes, o desamparo diante da corrupção desenfreada, o desconforto com o rumo que tomamos, faz com que, para muitos, a Quaresma seja cotidiana. Para as classes desvalidas, porém, ela é mais concreta e permanente. O tempo de penitência e jejum, é bastante familiar aos que vivem na linha da pobreza e suas proximidades, para cima ou para baixo, que vivenciam todos os dias, uma situação quaresmal. Penitenciam-se do mal que não cometeram, jejuando e abstendo-se de carne, não por crença na vida eterna, mas por carência na vida terrena. A Quaresma é o tempo em que devemos reconhecer que somos pó. Representa os 40 anos de caminhada do povo de Israel, pelo Deserto de Sinai em busca da Terra Prometida. É a passagem da escravidão no Egito, para a liberdade. Interligam-se, desta forma, os conceitos de Quaresma (quadragésima) e Páscoa (passagem). Ao fim de 40 anos de caminhada, apesar da infidelidade de alguns chefes, que criaram e adoraram o Bezerro de Ouro, o povo judeu alcançou a Terra Prometida. Esta dificuldade se repete até hoje: o povo não consegue alcançar a terra prometida porque permanece a adorar bezerros de ouro e querer possuí-los. O povo brasileiro sofre uma longa Quaresma. Apesar de habitar a terra prometida há 500 anos, explorado e colonizado de diversas formas, continua sua caminhada em busca de si próprio. Ao longo da história, o brasileiro sofreu sujeição a vários povos poderosos. Após se libertar do jugo estrangeiro, o povo judeu teve retardada sua entrada na Terra Prometida, como castigo pela adoração ao Bezerro de Ouro. O mesmo acontece com o brasileiro: não consegue entrar na Era Prometida, pela adoração ao Deus-Lucro, ao Deus-Ambição. A Quaresma é tempo de espera e privação, mas é suportada pelos fiéis, porque tem data certa para transformar-se em Páscoa e Ressurreição. A tristeza da Paixão e do sofrimento prenuncia as alegrias que virão. Mas a Quaresma que atravessa boa parte do povo brasileiro, quando irá acabar? Quando teremos perspectivas de vislumbrar a terra onde corre leite e mel? A caminhada não se faz num deserto de ideias e intenções, mas até agora estas não foram transformadas em ações efetivas, não alcançaram a todos. A valorização e o respeito à vida seriam o sinal verdadeiro de fim de uma quaresma, que se faz longa, para vivenciar a alegria pascal, a passagem da morte para a vida.

Nelly Carvalho é PG Letras da UFPE

Autor: Vinculado ao interjornal.noticias


 
 
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